Autorretrato em ferrugem e pulso
Sou feita de conter correntezas.
Por fora, músculo e medida.
Por dentro, maré.
Há dias em que me ergo
com ombros de cobre ao sol,
e me penso invencível.
Noutros,
uma fissura mínima
faz ruir catedrais.
Tenho mania de calcular o mundo:
peso, porções, passos,
como se a exatidão
pudesse domesticar o susto.
Mas o peito
nunca coube em planilhas.
Sou mulher de reaprumo.
Quando me torço,
endireito.
Quando me espalho,
recolho meus fragmentos
como quem junta sementes.
Carrego uma beleza áspera,
dessas que não pedem licença.
Ferrugem viva.
Laranja de ocaso.
Metal aquecido.
Já me pensei seca.
Mas era raiz
trabalhando escondida.
Já me pensei quebrada.
Mas era muda
forçando a casca.
E se às vezes me perco
naquilo que me fere,
há em mim um retorno
mais antigo que o dano.
Volto.
Como volta o corpo ao eixo.
Como volta o punho à guarda.
Como volta a flor
quando a estação consente.
Sou feita de ternura armada.
E talvez meu nome seja esse
entre delicadeza e combate:
mulher
que sangra símbolo,
e mesmo em ruína,
treina permanência.
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Eu sou uma mulher que pensa com feridas.
Toco o amor e ele me devora as mãos.
Mas não venho dócil.
Trago nos ombros
o rumor das lutas
e no ventre
um animal que sobrevive.
Quis ser pura medida.
Número. Controle. Ascese.
Mas Deus pôs em mim
esta matéria excessiva:
sentir.
E sinto até o osso.
Se me quebram,
estilhaço luz.
Se me desejam ruína,
faço da ruína um idioma.
Porque sou dessa espécie
de mulheres que ardem
e aprendem a chamar chama
de destino.
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Deus também mora
num braço bonito depois do treino.
Mora num ombro definido,
num pão com queijo,
na coragem de ir trabalhar
mesmo triste.
Quem disse
que santidade não sua?
Eu te digo:
há graça
em contar calorias e ainda escrever poemas.
Há graça
em corrigir cadernos
com o coração em desordem.
Mulher nenhuma é pequena
quando aprende
a voltar para si.
E eu volto.
Ponho o feijão no fogo,
arrumo a alma,
e sigo.
Isso também é milagre.










