domingo, 19 de abril de 2026

Autorretrato


 Autorretrato em ferrugem e pulso


Sou feita de conter correntezas.

Por fora, músculo e medida.

Por dentro, maré.


Há dias em que me ergo

com ombros de cobre ao sol,

e me penso invencível.

Noutros,

uma fissura mínima

faz ruir catedrais.


Tenho mania de calcular o mundo:

peso, porções, passos,

como se a exatidão

pudesse domesticar o susto.

Mas o peito

nunca coube em planilhas.


Sou mulher de reaprumo.


Quando me torço,

endireito.

Quando me espalho,

recolho meus fragmentos

como quem junta sementes.


Carrego uma beleza áspera,

dessas que não pedem licença.


Ferrugem viva.

Laranja de ocaso.

Metal aquecido.


Já me pensei seca.

Mas era raiz

trabalhando escondida.

Já me pensei quebrada.

Mas era muda

forçando a casca.


E se às vezes me perco

naquilo que me fere,

há em mim um retorno

mais antigo que o dano.


Volto.


Como volta o corpo ao eixo.

Como volta o punho à guarda.

Como volta a flor

quando a estação consente.


Sou feita de ternura armada.

E talvez meu nome seja esse

entre delicadeza e combate:

mulher

que sangra símbolo,

e mesmo em ruína,

treina permanência.


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Eu sou uma mulher que pensa com feridas.

Toco o amor e ele me devora as mãos.

Mas não venho dócil.

Trago nos ombros

o rumor das lutas

e no ventre

um animal que sobrevive.


Quis ser pura medida.

Número. Controle. Ascese.

Mas Deus pôs em mim

esta matéria excessiva:

sentir.


E sinto até o osso.


Se me quebram,

estilhaço luz.

Se me desejam ruína,

faço da ruína um idioma.

Porque sou dessa espécie

de mulheres que ardem

e aprendem a chamar chama

de destino.


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Deus também mora

num braço bonito depois do treino.

Mora num ombro definido,

num pão com queijo,

na coragem de ir trabalhar

mesmo triste.

Quem disse

que santidade não sua?

Eu te digo:

há graça

em contar calorias e ainda escrever poemas.

Há graça

em corrigir cadernos

com o coração em desordem.

Mulher nenhuma é pequena

quando aprende

a voltar para si.

E eu volto.

Ponho o feijão no fogo,

arrumo a alma,

e sigo.

Isso também é milagre.


sexta-feira, 17 de abril de 2026


Que dor seca essa no peito.

Que folha seca sou eu agora?


Suspeito.


A brisa do outono veio,

E trouxe o ébano, meu anseio.


Fui seca, achando que voaria dançando...


Ventania.

Moinho de equívocos;

Eu, seca, fui quebrando.


Laranja ferrugem que sou,

Pensava ser beleza cativante.

Me enterrei em teu semblante

E minha flor desabrochou.


Me enganei eu;

Não me viu flor.

Eu era folha.

Uma folha seca com uma flor aguada.


Aguei- te e saí quebrada. 

sábado, 14 de março de 2026



Tenho fascínio 

Pela carne viva.


A dor não me atrofia. 


Sempre que sangro

Embriago-me

Do meu próprio sangue. 


Sorrio. 


Sorrio chorando. 


Não tenho abrando. 


Minha carne é crua. 

Minha carne é nua. 


Tumultua. 


Meu olhos, encarnados,

Alimentam-se 

Da minha própria carne - 

Viva

Crua

E nua. 

sábado, 11 de outubro de 2025


Hoje me entristeço

Ao pensar no tempo que desperdicei 

Sendo o que eu não era,

Deixando que fossem por mim.


Dei meu tempo,

Meus sonhos,

Meus planos,

Meus anos...

A uma vida que não era eu quem escolhia.


Penso que quando eu alcançar

O que, hoje, anseio;

Serei uma mulher vetusta,

E não terei mais a juventude a meu favor.



- Longo silêncio -



Há um tempo passei a dar o "benefício da dúvida" a reencarnação... 

(Pelo fato de ir contra o que me foi ensinado)

E, presentemente, confesso, torço para que em uma hipotética outra vida, eu seja eu, desde o início.


Tantos se escoaram,

Fizeram uma versão feia de mim.

E eu fiz de todos eles, arte.

Poema de lágrimas,

Poema de saudade,

Poema de liberdade...


Volumoso número de gente

Fez da flor disforme;

Fez da flor, sem valor.

Desamor.

- Eu restauro o que restou -


Destarte,

Fiz arte;

Prática ou teórica,

Consciente, controlada e racional.

Entre a beleza e eu, há um flerte

Que ninguém sacrifica.

Apetite que não se detém.

Paixão...


Sobre tudo de desairoso,

Desabrocho e brado em mim:

Ascenção!

domingo, 13 de julho de 2025

 



Tal úlcera te consome inteiro.

Já não há mais você,

Criaste um auto cativeiro.

Preso no passado,

Tortura e agonia batidas,

Correntes...

Correntes vultosas de sentimentos arcaicos.

Sangue caduco.

Coração eunuco.

Frívolo.

Oco.

E o eco repete em ti:

Fraco. 

E meu rosto segue sujo do sangue que objeta em mim. 

Eu acato a plasma,

Traço no rosto duas alas.

É oportuno broquel, 

Aprendi a ser sépala. 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

segunda-feira, 28 de abril de 2025


Coisa tão adorável é vivenciar aromas.

Remetem vida. 

Nostalgia. 

Aromas são, prontamente, sintomas.

domingo, 18 de agosto de 2024


 

Me esquenta
Me arde
Me lambe
Me morde
Assopra
E Come
Sou fogo
Pimenta
Fruta
Tormenta
Cálida
Brasa
Vulcânica
Ávida
Desafie
Suscite
Ultraje
Cause
Erupção


 

Talvez eu não seja somente armadura
Talvez eu seja mais que essa bravura
Em ser sozinha. Só minha.
Talvez eu seja pele
Que arrepia
Corpo que encaixa
Pelos, cabelos.
Talvez eu deseje
Nem que por um dia
Ser só uma menina
Uma mulher feminina
Deitar nas costelas
Da virilidade
Talvez eu tenha sonhado
Com isso um dia
Talvez eu ainda seja
Só uma mulher
Escondida
Na dureza dessa armadura
Que eu roubei
Do homem que foi
Menos homem que eu
Na vida.
Talvez eu queira
Nem que por um segundo
Me sentir protegida
Sorrir confiando na companhia
Me entrelaçar
Ser rainha
Ser a musa da poesia
Em que, não eu,
Escreveria.
Talvez eu quisesse
Um beijo de bom dia
O prazer de mãos dadas com a alegria
Menos da minha autonomia
Nossos papéis em harmonia
Talvez esse seja meu segredo
Ou apenas uma poesia inspirada em fantasia
Quem sabe? 
Minha utopia?


 

De frente ao espelho
Ela observa
A obsessão dele
O desejo dele
As mãos percorrerem por ela
Desenharem sobre o corpo dela
Transmitirem a paixão de tocá-la
A consciência em tê-la para si
Nem que fosse somente ali.

E era.