terça-feira, 30 de janeiro de 2024


 

Há dias que não quero ter utilidade

Não quero ser agradável

Não será um prazer sorrir

Será que posso demonstrar

Um pouco de fragilidade?

 

Para quê abrir as janelas?

A cama está aconchegante

O brilho lá fora, tão ofuscante

As vozes na rua, penetrantes.

Quantas delas!

 

Parece que mais ninguém 

Vive isso como eu

As pessoas vivem todos os dias

Eu não

Hoje minha vitalidade

Se rendeu

 

Na verdade, isso já virou praxe

Aceito meu espirito

O que são alguns dias

Comparados a todos os anos?

Deixo que a vida volte e me ache

 

Mas me preocupo

Não vou negar

Às vezes, tenho medo

Me questiono se é comum

Se vai passar

Ou piorar




Por um tempo, busquei minhas vontades. Foram anos nessa busca incessante pelo desejo, pelo prazer, pela felicidade e por mim mesma. Fui atrás de toda experiência que fazia meus olhos brilharem; e consegui fecha-los depois de satisfeita. Eu me permiti errar e caminhar em plena escuridão.

Encontrei tudo que fui atrás.

Deslumbrada, não notava que nada daquilo fazia sentido. Preocupei apenas em infiltrar-me, com posturas de quem ali pertencia. Não me amedrontei. Foi fácil para alguém que já não se apegava a lugar algum, estar em vários, com vários. 


 


 

Ó, moço!

Eu me importava

O considerava

Quando em teu egocentrismo,

Vi que lugar para mim faltava.

 

Ó, vida!

Eu o amava

Mas não o tocava

Quando sem caminho,

Teu ar me matava.

 

Ó, criança!

Teu sonho em cristal quebrava

Tua alma gritava

Quando ferindo o coração,

Tua felicidade acabava.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024


 

Como eu poderia escrever um romance

se não tenho em quem pensar?

Que rosto seria minha inspiração,

no caso de eu querer desenhar?

Mas estou a sorrir, acredita?

Estar desabitada é divertido.

Há tanto tempo que não perco meu tempo.

Não perco meu sono.

Não perco meu ermo.

Entretanto, nem sempre é assim, só alegria.

Já encontrei alguém que deveria,

Além de amar, conservar.

Porém, como faria? Eu não sentia.

Então, o sorriso se esvai e vem o clima,

Seco e árido, que não cultiva; não alivia.

Eu já desejei algum sentimento,

Nem que fosse ruim, para eu me sentir viva;

Mas não há adubo que sirva para essa total rebeldia.

Não está sob meu controle, bem que eu queria.

Voltar a amar, desejar, sentir borboletas no estômago e,

Até chorar

Seria viver e conseguir recordar

Sem precisar esquecer

E cancelar

Mas nunca tive sorte com isso

Ou gostei e tive prejuízo

Ou gostaram e não tive compromisso

Ah! Que poema mais sem graça

Não tem biotipo, nem cor e nem raça.

Não há ninguém que ultrapasse

Os limites de minha armadura

E de minha bacia rasa

Não verte mais água

Não enche uma taça

Não mina mais amor

Onde já corroeu a desgraça.

Mas que coisa hilária

Que graça!

Se isso for bom, Graças!

E se não for...

Faça.



 

Ao som de uma bela canção de Chopin

Meus sentimentos oscilam junto as notas

Às vezes, me parecem alegres

Então me sinto assim

Outras vezes, soam exasperadas

Fugazes

Recordo-me de mim

 

Que bela canção triste

Que minha alma dança

E encanta

Que beleza nessa tristeza que ouço

Onde o pensamento é corajoso

E se torna tão maior que eu

Todavia,

Apenas um esboço

A alma dança

Avulsa

Em terreno melindroso

 

Em meio a tantas notas lindas

Que traduzem tristeza

Aparecem àquelas pequenas notas vivas

Que cintilam em meio ao pesar

Elas são as alegrias

 

Traduzo isso à vida

Não mais que hipotética

Eu diria

Entretanto,

Música é arte

Arte é vida

Vida é realidade

À vista disso,

Vai além dos ouvidos

São tempos vividos.


domingo, 21 de janeiro de 2024

 


Infância

 

Perdão, querida criança 

Eu realmente desiludi você. 

Sempre em meu pensamento

Suas tentativas de me quebrantar

Mas minha mesquinhez e rebeldia foi se tornando um bicho e assolando os teus sonhos 

- que eram meus também. -

Eu me deixei surrupiar.

Arrebatei de você a inocência. 

As boas intenções. 

A fé.

As crenças. 

As opiniões.

Eu te afoguei nas mágoas que eu aguava.

Usei o teu coração para a mácula. 

Desfrutei teu corpo e retalhei tua alma.


Querida, você chegou ao seu limite

E ele, por vezes, minou nos olhos que eu usava.

E, ainda assim, hoje consigo sentir teu sorriso ao ver que enxerguei a eiva.

Você é a apreciação e o voto dos nossos pais, 

A polidez que deram, e tudo que foi originado como pessoa.

Você é quem eu sempre quis proteger, mesmo que de formas erradas.  

Era ingênua demais, criança.

Mas compreendi que não posso deter que cresça e não posso, nunca mais, fazer-te sair de mim, suscitando coisas que te destrói aos poucos.

Você está machucada e frágil, eu sei; mas também sei que pugna contra mim, essa outra face de você, que não sabe se cuidar.

E como sabemos, há sempre dois lados.

Mas quero cuidar de ti, que é o melhor.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024



                                                        É, criança!

Teus desejos te decepcionaram.

Teus sonhos eram ocos.

Tuas vontades, fúteis.

Teus hormônios, poucos. 


 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024


Hoje eu tive um sonho com você.

Nele, você me parecia consumido pela dor.

A tristeza trazia um brilho fosco aos teus olhos.

 

Percebo que, finalmente,

Consegui te olhar sem sentir nada.

Aliás, nada do que já senti por você.

Digo ainda mais,

Nada do que já senti, depois do amor.

Depois que ele acabou.

(Comigo).

 

Atento-me que, ao dizer nada;

Eu diria que, de repulsivo.

Pois eu senti tua dor.

E tive pena.

Parecia padecer do sentimento clandestino.

 

Precisei interceder por você.

Pedi aos céus que te livrasse de tua dor.

E da minha.

Esta, não precisava mais carregar.

Eu a curei.

- Bem, eu não teria tal poder. –

Acordei curada.

 

Continuei a pedir.

Quero te libertar de mim

Já que de si mesmo, só você é capaz.

 

Mas anseio que,

Um dia

Algum dia;

Você amanheça como eu.

Livre de si.

E também me liberte de ti.

 

Eu poderia findar aqui,

Mas me lembrei de algo importante.

Um dia escrevi:

“Há pessoas que são poesias e outras, que nos tiram ela.”

E me enganei ao concluir isso baseando-me em ti.

A poesia ainda existe na mais miserável pessoa.

 

Ela existe depois que ecoa.

 

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

 


Lábios. 

Te beijaria fervorosamente.

Meus olhos olhariam os seus com firmeza, 

E veria os seus temerosos.

Você confiaria em mim 

E eu te usaria.

Essa é a minha dor, 

E eu quero que você sinta.

Esse é o meu desgosto, 

E eu quero que você goste.

Não quero que confie em mim. 

Não pode confiar em mim.

Eu te dou atenção, consigo o que eu quero.

Mas, não me ame nunca. 

Minhas vontades são o que me alimenta.

Seu desejo é o que me sustenta.

Me faça sofrer, 

Me doa, 

Me dê prazer, 

Mas não me ame. 

Caso contrário eu mato você. 

Mato seus prazeres. 

Mato suas vontades 

E seu coração.

Me doa, 

para (eu) não doer em você.


domingo, 14 de janeiro de 2024

Cotidiano




Olá, como está?

- Eu deveria te dizer que estou consumida por minhas responsabilidades? Ou, talvez, que receio o amanhã e o que virá com ele? Acredito que não. Mas e o padecimento de resistir ao peso da vida só? E minha consciência? Onde coloco o abismo que criei entre mim e você? Entre mim e o mundo? Por que parece que o lado onde estou, encontra-se apenas a mim? Tudo bem, tudo bem. Inacessível. Mas você compreende a saudade da criança que fui? Sabe como poderia acalma-la? Ela faz com que me sinta faltosa, apesar de me ter encontrado. Me diz que não sou como ela é. Como pode isso ser possível, se me lembro o obscuro que nela havia? Eu via. Vivia.

Como poderia te responder essa pergunta assim, tão vagamente? Não passei vagamente pela vida. Minha inteligência nunca esteve vaga, entretanto, o desalumiado fazia parecer que sim.

Não, não, não. A mente distorce a realidade se deixarmos.

Não deixaria.

O que faria com essa covardia que me invade? Sinto medo da fraqueza do pensamento. Mas estou esvaziando o peso. Estou acendendo as luzes. Encarando o armário da balbúrdia.

 

- Respiro fundo -

 

Você poderia me responder porque eu não sinto mais nada? Por que meu coração está frígido? Por que fechar as janelas, ao fim do dia, é tão prazeroso? Por que me trataram como um ser humano de ferro? E por que eu finjo que sou de ferro? Você entende, não é mesmo?! Costas largas aguentam, aguentam, aguentam... É o que dizem. Como você reagiria se soubesse desse caos que está por trás de um...

 

- Estou bem e você?


 




Ah, os felinos!

Lindos, cautelosos e loucos.

Caminham com leveza. 

Discretos. Independentes. Carentes e frios. 

Inteligentes.

Chegam de mansinho, roncando manhosos; 

Sim, essa é uma forma de pedir carinho e atenção.

Mas, ao mesmo tempo, dispensável; 

O não, não faz mal. 

Repare bem, não faz mal; não dependem disso.

E o tesão que é caçar? Não comem suas "presas", seja o bicho que for.

Brincam. 

Apenas brincar com aquela coisa que não para de se mexer.

Puro extinto.

Vivem morrendo, mas sempre restam cinco ou três vidas na "manga". 

Vivem no perigo, sem qualquer corrente.

Andam em cima do muro, mas não perdem o equilíbrio.

Tão sós. 

Lutando contra as artimanhas naturais do universo, 

Mantem- se vivos; 

mas não suportam os venenos humanos.


 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024





Pensei que duraria para sempre,

Aquela sensação de mundo perdido.

Quiçá!

Tirei a mesa de centro,

Notei o espaço da sala.

Passei remédio em meu machucado;

Ardido.

 

Durou muito,

Hoje parece pouco.

Vejo meu pai feliz, surpreendido.

 

Me sinto enorme,

Parece que não caibo no mundo.

Não é questão de sentir-me melhor,

Mas, comprido.

 

Preciso colocar para fora

Tudo que sou.

Basta! Ser comedido.

Fazendo, ou não, sentido.


 


Solidão

 

Com todo respeito, posso te chamar de  senhora?

Gostaria de perguntar: por que veio  aqui?

Eu sei, não combinamos horários, mas;  

Viria quando precisasse.

Sente minhas necessidades?

Não me entenda mal, te chamei assim,     porque sei 

Que há muito tempo nos acompanha.

Talvez, isso explique nos conhecer tanto.

Conhece todos. Sabe quando aparecer,  mesmo, muitas vezes, 

Não sendo bem-vinda.


Imagino que seja uma senhora de cabelos grisalhos, 

Bem vestida e muito elegante; 

Com ar de mistério.


Se acomoda em um canto e me ouve; 

Não            o que falo, 

e sim o que penso.

Sorri, carinhosamente, 

Ao ver uma lágrima cair, tímida.

De repente, minha  almofada se torna teu colo; 

Durmo.

Nunca te vejo ir embora, 

Mas sei o  mais importante: quando chegas.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024






Sempre fui como me faziam; 

Achava isso uma qualidade 

Até cair nas mãos  de alguém 

Que me fez menor.

Engraçado como a gente vai  diminuindo 

E não nota.

 





Como se estivesse chegado ao fim, percebo que nada tem valor. Mas, como se voltasse à estaca zero, percebo, também, que o valor está além do que eu imaginava. Do que eu valorizava. Um gesto, uma consequência e um degrau - podendo  subir ou descer.

Fácil dizer o que se aprendeu vivendo.  E o desvio é, realmente, um erro?

Faz sentido agora, para mim, que precisamos ser uma eterna criança. E  como qualquer outra, eu precisei ter para não mais querer.






Rapaz estranho,

Lábios bem desenhados, olhos sedutores e misteriosos. 

Voz rouca e  timbre firme, levemente forçado. 

Culto e envolvente. Observador e inteligente.

Notou rapidamente meus olhares. 

Invasivo para alguém fechada como eu; 

Me intimidava.


Me descobriu tão facilmente. 

E ainda    assim, nada sabia de mim.

Uma relação de poucos momentos. 

Suficientes.


Eu queria ter dito que eu tinha medo. 

Era experiência demais que ele parecia  possuir com mulheres.

Tive medo de cair nas garras de um  canalha. 

Tive esse canalha.

Mas, talvez não fosse capaz de tê-lo  por quanto quisesse.

E não fui.







Naquela sala de estar,

Onde sempre  nos encontramos

Você me puxa pelo braço, 

De repente, 

Me tira um beijo bruto

Um clima maluco 

Estou à sua vontade



Me olha nos olhos 

Me vejo em espelho

Esse mistério de não saber de você 

Me enlouquece

Me aborrece

Me consolo, logo aí 

Nos teus pelos

Me amarro nos teus cabelos

Você trouxe tudo que eu precisava 

Destruiu o que me acabava

Meu maior nível de paixão

Meu mais profundo desejo.


Eu, moça simples 

Cabelos espatifados, 

Unhas por fazer,

Pele branca, desenhada

Coração na mão

Mãos no cabelo 

Unhas no couro

Desesperada, minha mente 

A alma quer sair

O corpo quer ficar

Ansiedade chega cuspindo fogo 

Angustia chega jogando água 

Eu quero paz

Eu busco paz 

Encontro desgraça 

Eu busco apoio

Quero encontrar encosto 

vejo flechas

Só me acertam pelas costas 

Pulmão ferido

Feridas sendo machucadas 

Eu queria amar

Só me fazem detestar

Queria esquecer

Mas de tanto querer 

Só me faço lembrar 

Nessa brincadeira toda 

Eu fui séria

Eu fui quieta 

Eu fui absoluta 

Eu fui massa

Me tornei concreto.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024



Te devoraria como um leão devora sua presa.

Em sua pele branca, meus dedos molhados com saliva,

a mesma que enche a boca ao ver você sofrer.

Queimar uma vela em seu corpo, fazer de você o meu centro de energias. 

Te fazer sentir o meu calor e meu amor.

Te sentir por inteiro.

Te enlouquecer.

Não te deixar esquecer.

Te fazer se arrepender, e ainda assim, me querer.

Desejar a minha morte e ir ao inferno comigo.

Me querer tanto até me odiar.

Eu te satisfaria. Lamberia. Você me comeria com o desejo de uma criança pobre, 

ao ver uma mesa farta.

Me destruiria. Você se faria meu. Me juraria ódio. 

Eu me tornaria dona dos seus pensamentos, de seus órgãos, de seus olhos.

Você seria o motivo de minhas pupilas se dilatarem.

Seu corpo me diria tudo que eu não poderia saber.