domingo, 31 de março de 2024

 


O ranger do balanço da criança
Lentamente, enquanto balança
Imagino que seja o último ruído
Que soa na mente
Quando todas as luzes apagam
E a sensação não mente
Outro mundo espera à frente
E, aos poucos,
Tudo vai clareando
Novamente

sábado, 23 de março de 2024

 


Meu corpo me trai
Enquanto minha mente se esforça
Em sua fortaleza
Minha pele busca sensações e suas fraquezas
Meus olhos correm como lobos
Estou faminta
Preciso de carne pelos meus dedos
Pelos
Sangue quente 
Elos

 


Hoje apareci
Mas estou com vontade de ficar sumida
Estou cansada
Magoada
Abatida
 
Meus sentimentos estão pesados
Causando peso também em meus ombros
Ainda não sei ao certo
Há dias quero entender
Há dias, esperando pelas palavras
Esperando a poesia nascer
 
Hoje apareci à força
Lutei contra os braços enrolados dos lençóis
Não sabia como começar
Não havia rumo
Nem barco
Para velejar
A imensidão dessa morte
A devastação desse ser
 
Um ser humano
 
Que ninguém vê
 
Estou sumida
Me sinto invisível e inofensiva
Há dias venho morrendo
Definhando com meu próprio veneno
Estou engolindo minhas palavras
Pois sobre quem as penso
Não vê em si, erro
 
Estou febril
Coração queimando por dentro
Há dias estou de cama
Alguns, morrendo
Em outros, vencendo
 
E como se eu não sangrasse
Observo você
Vivendo
 
Estou invisível
Sumi de mim
Me curarei, eu sei
Mas sempre que me curo assim
Também morro
Um pouco
Não cobrarei amparo 
Fique me devendo

sábado, 9 de março de 2024


Hoje desejei viver
Até morrer
Então pensei em você
E como se houvesse total certeza
Concluí:
Cuidaria de ti
De onde quer que estivesse
Meu legado não é finito
Filho
O que carrego em mim
É ínclito


 


 

Para deixar alguém angustiado
Basta não retribuir às exigências
Quando o outro está disposto a desentender-se
Manter a calma deixa-o aflito
 
E que seria das consequências
Sem alimento à paz e ao alívio?
E que será de quem apaga o pavio?
 
Engolir a fumaça
A ameaça
A trapaça
A pirraça
 
O que sobra de quem cede?
Com perdão, um pouco de graça
Um cômodo escuro e solitário
Não sujo
Talvez, apenas consumido pela traça
E desse cômodo, o coração é a casa.

domingo, 3 de março de 2024


 

Meu corpo tem sido tão meu
Só meu
Que seria de mim sem a literatura?
Seria eu, ateu.

Se não houvessem histórias
Romances e poesia
Eu não acreditaria

Bem, talvez, não acredite
Talvez, seja apenas um palpite
Que amor existe
E o mal exime
 

Meu corpo dança
Se encanta
Sente e balança
Embalado pela imaginação
E esperança
 
Vez ou outra,
As mãos que o tocam são minhas
Me conheço
No tempo em que,
Para mim,
Caminhas 


Quando chegares,
Ensino
As suas, não deleitarão
Sozinhas


Manhã de sol

 

Alegria de gente triste é paz
A paz dessa gente alegre é o sol
Entrando em casa pela manhã
O sol e essa gente refletem uma luz
Com sombras das grades da janela
Sombras e aquarela.

sábado, 2 de março de 2024



O choro da mãe
Nas costas do filho
É árduo
Ainda que o filho
Não carregue asco
Nem maldade
Ao prisma da mãe
Há apenas uma finalidade
O choro...


O choro é mútuo.


Filho também se esgota
Fica ressentido
Choro de mãe dói
Mas qual o motivo?
 
Filho cansa de ter que esquecer
Quer viver
Não podem haver mágoas
Acumula esquecimentos
Tormentos.
 
Culpa sem culpa fere
Mãe não estende as mãos
Não adere.
 
Filho cresce
Quando criança, vê ao redor
Outro dia,
Vê-se só.
E na sinceridade, não vê ninguém
Nem mãe, nem pai e nem outrem.

Filho muda
Se abstém
Filho não é refém
Filho não é convém

Sou mãe
Sou filha
Sangrei;
Sou alguém.