Muita gente à
minha volta. Olhares curiosos desejando encontrar motivos e respostas à suas
curiosidades, nesse caso. Mesmo sentada em frente ao delegado da polícia,
conseguia sentir os olhares que estavam ao meu redor. Todos queriam saber daquela
trama, os detalhes do que o delinquente teria me feito, do por quê terem sido
tantos dias presa, sem moeda de troca, sem pedido de resgate. Meu marido
segurava minha mão esquerda, sentado ao meu lado, assim como todos, esperando
que eu começasse a falar. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto me
lembrava dos dias que estive com o homem desconhecido.
O fato de eu
ser uma pessoa pública, gerou muita conversa dentro e fora daquela sala, que
por sinal era mais sombria do que o local onde eu estava com Guto – cujo
codinome ali era delinquente, sequestrador, marginal e malfeitor. Eu sou uma
famosa cirurgiã, muito procurada por homens e mulheres que desejam realizar
cirurgias estéticas. Após ser resgatada, fui levada imediatamente ao hospital
para fazer exames variados para que descobrissem se eu havia sido violada e até
que ponto, aquele homem haveria me machucado. Sentada ali, eu me questionava
enquanto todos cochichavam, de forma cada vez mais veemente, se eu deveria
dizer a verdade. Então olhei nos olhos de meu marido e disse:
- Cris, eu
não quero falar agora. Me tire daqui.
Eu sabia que
não poderia sair daquele local sem dizer nada, e foi isso que tive como
resposta.
Escorreu uma
lágrima em meu rosto, quando fui desviar meu olhar dos olhos de Cris, e meu
queixo tremeu, o nó na garganta não desceu e comecei a chorar. Mas ninguém ali
saberia que não era nada do que eles achavam que sabiam.
As
lembranças não paravam de rolar em minha mente e Guto estava mais que presente
em mim.
Então
comecei a dizer:
- Eu
caminhava pelo parque Visão Verde, próxima a ponte que liga a praça dos macacos
ao lago maior; quando ele surgiu por detrás de uma árvore grande, localizada ao
lado esquerdo do trajeto e me puxou, tapando meus lábios, para que eu não
gritasse e pedisse por socorro; e em meu ouvido, disse que não queria me fazer
mal como estavam fazendo. Tentei manter a calma e o obedeci, para não causar
mais nervosismo. Pude notar que ele estava suando, suas mãos estavam geladas e
trêmulas. Logo em seguida, bem próximo dali, no caminho onde leva ao
estacionamento de veículos, entramos em um carro e seguimos sentido a saída da
cidade, e vi o caminho todo que seguimos.
Após ter
mencionado isso, imediatamente, fui questionada pelo assistente do delegado,
que estava sentado à beira da mesa, olhando para mim atentamente:
- Se a
senhora sabia onde estava indo, não pensou em arrumar uma forma de fugir ou
comunicar a alguém esse fato? A senhora estava com o celular?
Ao ouvir
essa pergunta, Cris deu uma leve apertada em minha mão, que ele segurava e o vi
me olhar, pela visão periférica. Dei uma pausa de dez segundos até que
respondi:
- Eu não
estava com o celular, ele havia sido quebrado na noite anterior por Cris, em
uma briga que tivemos em casa.
O delegado,
sem paciência para esse pequeno detalhe, pediu para que eu continuasse. Então
assim o fiz:
- Ele me
levou à capela abandonada sentido a cachoeira Céu Azul, subindo as montanhas.
Foi em silêncio assim como eu e chegando lá, só falou comigo para me pedir que
fosse caminhando junto a ele até o interior da capela, me deixou lá e fechou a
porta com tranca, pois pude ouvir o barulho das correntes que ele enrolou na
fechadura. Eu estava com meu relógio digital de caminhada e contei as horas que
fiquei ali sozinha. Foram três horas até que ele abriu novamente a porta e
apareceu segurando, em sua mão direita, uma cesta com duas maças e dois
sanduiches com patê de atum; e em sua mão esquerda, uma sacola com medicamentos
e curativos.
Ouvi um
comentário feminino que cochichou:
- Coitada,
que situação pavorosa! Eu estaria chorando e gritando.
Então
respondi:
- Eu não fiz
nada disso, estava muito cansada para conseguir gritar e chorar. E me virei
para ver o rosto da mulher que havia comentado. Enquanto voltava os olhos para
frente, vi as unhas de Cris, ruídas.
- Continue,
senhora. – Disse o delegado.
- Ele se
sentou ao meu lado, sob um feixe de luz em seu rosto, que vinha de uma fresta
das janelas que estavam semicerradas e então resolvi olhar nos olhos do homem
pela primeira vez. Ele sorria, com riso de canto, para mim. E então, colocou os
itens no chão, à nossa frente e me disse:
- Coma.
Creio que tenha acertado no café da manhã. E perdoe-me o susto. Foi o único
jeito que encontrei.
Não
conseguia compreender o que ele me dizia, mas preferi não comer. Meu maxilar
doeu, foi quando notei, ao tentar dar uma resposta a ele; e fiz uma leve
careta, ao sentir a dor. Ele não deixou de notar e disse:
- Você não
merece ser tratada assim. Tudo bem se não quiser comer, mas deveria tentar.
Eu não o
conhecia, não lembrava daquele rosto de lugar algum. Mas ele parecia saber quem
era eu e o que havia acontecido comigo na noite anterior, entre mim e Cris.
Ele abriu
então as janelas, das quais não tinham grades, e era impossível que eu não
pensasse conseguir pulá-las e fugir. Então, a caminho da porta, vira-se e me
diz:
- Estarei ao
lado de fora, não tente fazer nada que eu tenha que te machucar para impedir.
Durante este
dia, ouvi a voz de uma nova pessoa e notei que falavam de Cris, de uma forma de
pedir resgate e também de valores. Cerca de quinhentos mil reais para que eu
voltasse para casa. Achei um valor absurdo e que Cris jamais pagaria.
Fui
interrompida subitamente:
- Eu pagaria
o que fosse preciso.
Continuei:
- Mas esse outro
homem não consegui ver o rosto, pois logo depois da conversa, ele apenas pediu
a Guto que me vigiasse atentamente e avisou que voltaria dali dois dias, com
notícias da tentativa de contato que faria com Cris. Nesses dois dias, fui
alimentada e levada para me banhar na cachoeira. Sem correntes, sem algemas,
sem nada que me prenderia. Guto ficava longe me vigiando, sempre sério; porém, de
forma gentil comigo. Foi quando o outro homem voltou no momento em que eu
estava me banhando e ficou nervoso, pois em sua concepção, eu deveria estar
presa na cabana por quanto tempo fosse preciso. Durante a discussão entre Guto e
esse homem, enquanto eu saía da água, ouvi ele dizer que meu marido mantinha o
celular desligado e não conseguiu contato para pedir o resgate. “Devíamos matá-la”
foram as palavras daquele homem. Guto saiu em silêncio, cravou os dedos em meu
braço e me levou até a cabana novamente. Após passar as correntes na fechadura,
foi até ao outro homem para conversar.
- Permita-me
interromper a senhora. – Disse o assistente do delegado – Tenho uma pergunta ao
senhor Cristopher. O que houve com o celular, que o elemento em questão, não conseguiu
contato para pedir o resgate da senhora Ana?
Ficou um silêncio
na sala, Cris soltou minha mão e cobriu a boca ao responder:
- Eu estava
desesperado pelo sumiço dela e não dei atenção ao celular, tinham muitas
pessoas ao meu redor me dando atenção e tentando ajudar. Fiquei perturbado.
Notei a
seriedade do delegado enquanto ouvia Cris se defender e vi seus dedos enrolando
a borda dos papeis que estavam sobre sua mesa. Então me pediu que continuasse,
sem desviar os olhos do rosto de Cris, que olhava suas próprias mãos cruzadas sobre
as coxas. Então continuei:
- Depois do último
episódio, ouvi que eles brigavam entre si, com socos e chutes até que sobreveio
o silêncio. Peguei meu relógio que estava jogado em meu canto esquerdo e vi que
eram dez da manhã. Fiquei presa ali, no escuro, até as quatorze horas. Pensei
que houvessem se matado. Pensei também que poderiam ter fugido e me deixado ali
para morrer de fome. Eu não sabia o que havia ocorrido, então pensei muitas
coisas. Pensei em gritar, mas eu sabia que não havia ninguém por ali. Comecei a
chorar muito, me deitei e me encolhi, pela primeira vez. Percebi que meu
maxilar havia melhorado um pouco. Não conseguia pensar em uma solução, mas
pensei em Cris. Foi quando ouvi passos e logo em seguida, as correntes sendo despassadas
da fechadura. Guto abriu a porta escancarada e me disse:
- Você está
livre, senhora. Parece que seu marido não se importa com a sua falta, ele não se
atentou em manter o celular ligado, para que entrássemos em contato.
Foi um
choque para mim, ouvi-lo falar. Após isso, ele saiu sentido a cachoeira.
Fiquei com
medo. Não saí do lugar por uns quinze minutos, até ter certeza de que era seguro
que eu saísse. Passei pela porta devagar, olhando para todos os lados e não via
ninguém. Comecei a correr disparadamente, sentido a saída daquele lugar, até
que vi um amontoado de terra recém mexido. Era óbvio. Era o corpo do outro homem
que estava enterrado ali. Senti um arrepio nas costas e nos braços, meu
estômago parecia revirar, senti tanto medo de estar ali, mas não senti medo de
Guto. Por um instante de loucura pensei: “Devo o considerar perigoso se ele
matou o próprio comparsa que desejava me matar, e me libertou? Que aliás, me tratou
com gentileza desde o primeiro momento?” mas, também pensei ser loucura não
sentir raiva de um homem que tenha me raptado. Parei de correr e estacionei
quando me lembrei da briga que tive com Cris, na noite que antecedeu o sequestro.
- Espera um
instante. – Disse o delegado – A senhora afirma então que ao pensar em voltar
para seu marido, parou de correr sentido a liberdade? Explique-se!
Cris me olhou
com os olhos cheios d’água e vi meu reflexo em suas pupilas.
- Nosso
casamento não caminhava bem e andávamos brigando muito. Sou uma mulher respeitada
e requisitada socialmente, isso passou a incomodar meu marido. Brigávamos sempre,
até que na noite anterior ao crime, durante outra briga, Cris me bateu. Levei vários
golpes entre barriga e costas, e um dolorido soco no rosto, que acertou mais
próximo a orelha. Após isso, tentei recorrer à polícia, mas Cris me impediu que
o fizesse, jogando meu celular contra a parede.
Cris se levantou
de supetão e disse:
- Não é exatamente
dessa forma que aconteceu e eu tinha motivos! Essa vagabunda agora se faz de miserável,
mas estava planejando me trair com um de seus parceiros de trabalho. Trocavam
mensagens pelas minhas costas.
O delegado, imediatamente,
também se levantou e em alta voz, disse:
- O senhor
pode se manter sentado até que eu o mande se levantar! Estou tentando entender
um crime em sua devida ordem. Ou achas que após esse relato o senhor sairá
livre daqui? – Perdoe-me, senhora, peço que continue.
- Decidi
voltar e procurar por Guto. – Continuei – Dei meia volta e segui sentido a
cachoeira. Quando cheguei, o vi mergulhando na parte mais funda e fiquei
escondida nos arbustos, apenas olhando. Meu corpo todo tremia por ainda estar
ali. Mas eu desejava saber quem era o homem e o porquê de tudo aquilo. Pensei que
estava escondida, até que ele olha para onde eu estava e diz:
- Por que ainda
não foi embora?
Saí
lentamente e andei em sua direção.
- Não sei o
que vou encontrar quando voltar.
- Penso eu, que a senhora sabe sim. – Disse ele, saindo da água e vindo até mim - Seu
marido, finalizou.
- O que sabe
do meu marido? – perguntei.
- Eu estava
vigiando sua rotina, senhora. Vi a ultima briga que tiveram. Como já te disse, a
senhora não merece ser tratada da forma que aceita.
- Você é
gentil para um homem criminoso.
Ele sorriu e
se sentou ao meu lado.
- Gostei de
você. E também senti pena, porque outra mulher em sua posição na vida e no
sequestro, estaria em desespero, gritando aos quatro cantos do mundo, implorando
por socorro. Mas, a você, isso pareceu sossego e liberdade. Talvez alguém, antes
de mim, já tenha surripiado algo em você.
Foi quando
Cris me interrompeu exclamando:
- Vejam só, ela
está assumindo que qualquer ordinário, vale mais que seu casamento comigo.
- Cale a
boca, seu merda! – Disse a mulher que se sentava à minhas costas.
Algumas
pessoas da sala sorriram e Cris ficou furioso, mas calou-se.
Então
continuei:
- Daquela
situação em diante, conversamos e ele me explicou que seu cúmplice desejava
dinheiro em troca de minha vida, mas que os planos foram por água abaixo após
não conseguirem contato com meu marido. E após esse fato, iria então me matar e
sumir com meu corpo. Mas, ele não pensou ser justo comigo e disse que sentiu
algo por mim, então na briga que teve com o companheiro, desejava contê-lo para
colocarem a cabeça no lugar, mas usou um pedaço de madeira, que estava no chão,
para desmaia-lo e quando notou, constatou que o outro teria morrido. E decidiu
enterrá-lo, para que pudesse me libertar e não me deparar com nenhum corpo pelo
caminho.
- Certo. E o
que houve depois disso? – perguntou o assistente do delegado.
- Voltamos
para a capela. Ficamos ali por mais três dias até que vocês chegaram.
- Mas o que
houve nesses três dias? – Perguntou a mulher, com voz de entusiasmo.
Dei um leve
sorriso de canto, ao perceber sua curiosidade.
- Ele vinha
até a cidade diariamente comprar alimentos.
- Como
dormiam? Retornou a perguntar a mulher.
- Dividíamos
o colchão que havia ali.
- Isso é
demais para mim! – Disse Cris – Estou ouvindo minha mulher falar que me traiu
com o bandido que a sequestrou.
- Continue
senhora. – Falou firmemente o delegado, olhando para Cris, com os dentes
cerrados.
- Ele me respeitava.
Não me forçou a nada. Eu me senti protegida e livre. Era apenas uma capela abandonada,
um colchão estendido no chão e a imagem de Jesus, que ainda se mantia presa no
centro da parede. Minhas roupas estavam nojentas, eu já me sentia suja e com
mal cheiro. Ele diariamente se banhava na cachoeira, então ao terceiro dia, pela
manhã, resolvi ir até lá também. Quando cheguei, ele já estava.
- Como está
a água? Ainda é tão cedo, deve estar congelante!
- Está fria,
mas você é capaz de suportar.
Sorri e
disse:
- Vire de
costas para que eu entre.
Ele se virou
e começou a falar como as árvores a nossa volta eram gigantescas. Tirei todas
minhas roupas e entrei.
- Pode se
virar agora.
Ainda não
tinha entrado por completo, estava em uma parte mais rasa, onde a água batia em
minha cintura. Então, assim que ele se virou, me viu nua. Não falamos nada um
para o outro, ele apenas chegou até mim, colocou as mãos em meu pescoço e me
deu um beijo. Logo após, mergulhamos juntos e voltamos para a beira da água. Eu
estava completamente nua e ele usava apenas sua roupa íntima. A única coisa que
o fez quebrar o silêncio, foi para me perguntar:
- Tem
certeza disso?
Mantive a
mudez.
Notei que
todos daquela sala estavam atônitos. Inclusive, Cris.
- Continue,
senhora! Por favor! – Disse o delegado.
- Ele começou
a me beijar – Continuei – E fizemos amor ali. Foi intenso e maravilhoso. A forma
que ele me tocou, ninguém havia tocado. Foi gentil e paciente. Meu corpo parecia
esconder um tesouro que ele desejava encontrar. Meus seios pareciam o acalentar.
Seus olhos foram os mais sinceros que eu já percebi, ao olhar. Após isso,
voltamos à capela e nos vestimos para nos alimentar. Foi quando ouvimos
barulhos de viaturas policiais, e ele se levantou às pressas, para ver o que
era.
- Nós o
encontramos devido ao carro roubado que estava estacionado próximo á vocês. –
Disse o delegado. Pensávamos que a senhora estaria em perigo.
- Uma linda
história de amor entre um meliante e uma mulher fajuta! – Disse Cris,
ironicamente.
- Levem esse
outro criminoso daqui. O senhor não vai intimidar minha cliente com sua insensatez
e aspereza. – Retrucou o delegado.
Os policiais
presentes na sala se movimentaram para segurar e levar Cris, algemado, já que minha
declaração evidenciava as agressões por parte dele. Inconformado, ele ainda
falava com voz altiva:
- Soltem-me!
Isso é um erro! Eu não a machuquei! Olhem bem, ela quem errou comigo!
- O senhor
irá responder por suas ações, antes e depois do ocorrido. Entretanto, em sua
devida hora. – Respondeu o delegado.
Então, seu
assistente me perguntou:
- E foi
nessa hora que aconteceu?
- Sim –
Respondi – Assim que ele deu três passos para fora, ouvi os barulhos dos dois
tiros que o acertaram e o vi ali, estendido, sem demora, sobre seu próprio
sangue.
Ouvi o
barulho da emoção que tomou a mulher que sentava à minhas costas. Me virei,
olhei em seus olhos lacrimejados e disse:
- Penso que
com sua sensibilidade, talvez você me entenda. Eu poderia superar um sequestro,
mas não sei se conseguirei superar esse amor.