domingo, 4 de fevereiro de 2024

Conto 1 - O vislumbre na capela

 


Muita gente à minha volta. Olhares curiosos desejando encontrar motivos e respostas à suas curiosidades, nesse caso. Mesmo sentada em frente ao delegado da polícia, conseguia sentir os olhares que estavam ao meu redor. Todos queriam saber daquela trama, os detalhes do que o delinquente teria me feito, do por quê terem sido tantos dias presa, sem moeda de troca, sem pedido de resgate. Meu marido segurava minha mão esquerda, sentado ao meu lado, assim como todos, esperando que eu começasse a falar. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto me lembrava dos dias que estive com o homem desconhecido.

O fato de eu ser uma pessoa pública, gerou muita conversa dentro e fora daquela sala, que por sinal era mais sombria do que o local onde eu estava com Guto – cujo codinome ali era delinquente, sequestrador, marginal e malfeitor. Eu sou uma famosa cirurgiã, muito procurada por homens e mulheres que desejam realizar cirurgias estéticas. Após ser resgatada, fui levada imediatamente ao hospital para fazer exames variados para que descobrissem se eu havia sido violada e até que ponto, aquele homem haveria me machucado. Sentada ali, eu me questionava enquanto todos cochichavam, de forma cada vez mais veemente, se eu deveria dizer a verdade. Então olhei nos olhos de meu marido e disse:

- Cris, eu não quero falar agora. Me tire daqui.

Eu sabia que não poderia sair daquele local sem dizer nada, e foi isso que tive como resposta.

Escorreu uma lágrima em meu rosto, quando fui desviar meu olhar dos olhos de Cris, e meu queixo tremeu, o nó na garganta não desceu e comecei a chorar. Mas ninguém ali saberia que não era nada do que eles achavam que sabiam.

As lembranças não paravam de rolar em minha mente e Guto estava mais que presente em mim.

Então comecei a dizer:

- Eu caminhava pelo parque Visão Verde, próxima a ponte que liga a praça dos macacos ao lago maior; quando ele surgiu por detrás de uma árvore grande, localizada ao lado esquerdo do trajeto e me puxou, tapando meus lábios, para que eu não gritasse e pedisse por socorro; e em meu ouvido, disse que não queria me fazer mal como estavam fazendo. Tentei manter a calma e o obedeci, para não causar mais nervosismo. Pude notar que ele estava suando, suas mãos estavam geladas e trêmulas. Logo em seguida, bem próximo dali, no caminho onde leva ao estacionamento de veículos, entramos em um carro e seguimos sentido a saída da cidade, e vi o caminho todo que seguimos.

Após ter mencionado isso, imediatamente, fui questionada pelo assistente do delegado, que estava sentado à beira da mesa, olhando para mim atentamente:

- Se a senhora sabia onde estava indo, não pensou em arrumar uma forma de fugir ou comunicar a alguém esse fato? A senhora estava com o celular?

Ao ouvir essa pergunta, Cris deu uma leve apertada em minha mão, que ele segurava e o vi me olhar, pela visão periférica. Dei uma pausa de dez segundos até que respondi:

- Eu não estava com o celular, ele havia sido quebrado na noite anterior por Cris, em uma briga que tivemos em casa.

O delegado, sem paciência para esse pequeno detalhe, pediu para que eu continuasse. Então assim o fiz:

- Ele me levou à capela abandonada sentido a cachoeira Céu Azul, subindo as montanhas. Foi em silêncio assim como eu e chegando lá, só falou comigo para me pedir que fosse caminhando junto a ele até o interior da capela, me deixou lá e fechou a porta com tranca, pois pude ouvir o barulho das correntes que ele enrolou na fechadura. Eu estava com meu relógio digital de caminhada e contei as horas que fiquei ali sozinha. Foram três horas até que ele abriu novamente a porta e apareceu segurando, em sua mão direita, uma cesta com duas maças e dois sanduiches com patê de atum; e em sua mão esquerda, uma sacola com medicamentos e curativos.

Ouvi um comentário feminino que cochichou:

- Coitada, que situação pavorosa! Eu estaria chorando e gritando.

Então respondi:

- Eu não fiz nada disso, estava muito cansada para conseguir gritar e chorar. E me virei para ver o rosto da mulher que havia comentado. Enquanto voltava os olhos para frente, vi as unhas de Cris, ruídas.

- Continue, senhora. – Disse o delegado.

- Ele se sentou ao meu lado, sob um feixe de luz em seu rosto, que vinha de uma fresta das janelas que estavam semicerradas e então resolvi olhar nos olhos do homem pela primeira vez. Ele sorria, com riso de canto, para mim. E então, colocou os itens no chão, à nossa frente e me disse:

- Coma. Creio que tenha acertado no café da manhã. E perdoe-me o susto. Foi o único jeito que encontrei.

Não conseguia compreender o que ele me dizia, mas preferi não comer. Meu maxilar doeu, foi quando notei, ao tentar dar uma resposta a ele; e fiz uma leve careta, ao sentir a dor. Ele não deixou de notar e disse:

- Você não merece ser tratada assim. Tudo bem se não quiser comer, mas deveria tentar.

Eu não o conhecia, não lembrava daquele rosto de lugar algum. Mas ele parecia saber quem era eu e o que havia acontecido comigo na noite anterior, entre mim e Cris.

Ele abriu então as janelas, das quais não tinham grades, e era impossível que eu não pensasse conseguir pulá-las e fugir. Então, a caminho da porta, vira-se e me diz:

- Estarei ao lado de fora, não tente fazer nada que eu tenha que te machucar para impedir.

Durante este dia, ouvi a voz de uma nova pessoa e notei que falavam de Cris, de uma forma de pedir resgate e também de valores. Cerca de quinhentos mil reais para que eu voltasse para casa. Achei um valor absurdo e que Cris jamais pagaria.

Fui interrompida subitamente:

- Eu pagaria o que fosse preciso.

Continuei:

- Mas esse outro homem não consegui ver o rosto, pois logo depois da conversa, ele apenas pediu a Guto que me vigiasse atentamente e avisou que voltaria dali dois dias, com notícias da tentativa de contato que faria com Cris. Nesses dois dias, fui alimentada e levada para me banhar na cachoeira. Sem correntes, sem algemas, sem nada que me prenderia. Guto ficava longe me vigiando, sempre sério; porém, de forma gentil comigo. Foi quando o outro homem voltou no momento em que eu estava me banhando e ficou nervoso, pois em sua concepção, eu deveria estar presa na cabana por quanto tempo fosse preciso. Durante a discussão entre Guto e esse homem, enquanto eu saía da água, ouvi ele dizer que meu marido mantinha o celular desligado e não conseguiu contato para pedir o resgate. “Devíamos matá-la” foram as palavras daquele homem. Guto saiu em silêncio, cravou os dedos em meu braço e me levou até a cabana novamente. Após passar as correntes na fechadura, foi até ao outro homem para conversar.

- Permita-me interromper a senhora. – Disse o assistente do delegado – Tenho uma pergunta ao senhor Cristopher. O que houve com o celular, que o elemento em questão, não conseguiu contato para pedir o resgate da senhora Ana?

Ficou um silêncio na sala, Cris soltou minha mão e cobriu a boca ao responder:

- Eu estava desesperado pelo sumiço dela e não dei atenção ao celular, tinham muitas pessoas ao meu redor me dando atenção e tentando ajudar. Fiquei perturbado.

Notei a seriedade do delegado enquanto ouvia Cris se defender e vi seus dedos enrolando a borda dos papeis que estavam sobre sua mesa. Então me pediu que continuasse, sem desviar os olhos do rosto de Cris, que olhava suas próprias mãos cruzadas sobre as coxas. Então continuei:

- Depois do último episódio, ouvi que eles brigavam entre si, com socos e chutes até que sobreveio o silêncio. Peguei meu relógio que estava jogado em meu canto esquerdo e vi que eram dez da manhã. Fiquei presa ali, no escuro, até as quatorze horas. Pensei que houvessem se matado. Pensei também que poderiam ter fugido e me deixado ali para morrer de fome. Eu não sabia o que havia ocorrido, então pensei muitas coisas. Pensei em gritar, mas eu sabia que não havia ninguém por ali. Comecei a chorar muito, me deitei e me encolhi, pela primeira vez. Percebi que meu maxilar havia melhorado um pouco. Não conseguia pensar em uma solução, mas pensei em Cris. Foi quando ouvi passos e logo em seguida, as correntes sendo despassadas da fechadura. Guto abriu a porta escancarada e me disse:

- Você está livre, senhora. Parece que seu marido não se importa com a sua falta, ele não se atentou em manter o celular ligado, para que entrássemos em contato.

Foi um choque para mim, ouvi-lo falar. Após isso, ele saiu sentido a cachoeira.

Fiquei com medo. Não saí do lugar por uns quinze minutos, até ter certeza de que era seguro que eu saísse. Passei pela porta devagar, olhando para todos os lados e não via ninguém. Comecei a correr disparadamente, sentido a saída daquele lugar, até que vi um amontoado de terra recém mexido. Era óbvio. Era o corpo do outro homem que estava enterrado ali. Senti um arrepio nas costas e nos braços, meu estômago parecia revirar, senti tanto medo de estar ali, mas não senti medo de Guto. Por um instante de loucura pensei: “Devo o considerar perigoso se ele matou o próprio comparsa que desejava me matar, e me libertou? Que aliás, me tratou com gentileza desde o primeiro momento?” mas, também pensei ser loucura não sentir raiva de um homem que tenha me raptado. Parei de correr e estacionei quando me lembrei da briga que tive com Cris, na noite que antecedeu o sequestro.

- Espera um instante. – Disse o delegado – A senhora afirma então que ao pensar em voltar para seu marido, parou de correr sentido a liberdade? Explique-se!

Cris me olhou com os olhos cheios d’água e vi meu reflexo em suas pupilas.

- Nosso casamento não caminhava bem e andávamos brigando muito. Sou uma mulher respeitada e requisitada socialmente, isso passou a incomodar meu marido. Brigávamos sempre, até que na noite anterior ao crime, durante outra briga, Cris me bateu. Levei vários golpes entre barriga e costas, e um dolorido soco no rosto, que acertou mais próximo a orelha. Após isso, tentei recorrer à polícia, mas Cris me impediu que o fizesse, jogando meu celular contra a parede.

Cris se levantou de supetão e disse:

- Não é exatamente dessa forma que aconteceu e eu tinha motivos! Essa vagabunda agora se faz de miserável, mas estava planejando me trair com um de seus parceiros de trabalho. Trocavam mensagens pelas minhas costas.

O delegado, imediatamente, também se levantou e em alta voz, disse:

- O senhor pode se manter sentado até que eu o mande se levantar! Estou tentando entender um crime em sua devida ordem. Ou achas que após esse relato o senhor sairá livre daqui? – Perdoe-me, senhora, peço que continue.

- Decidi voltar e procurar por Guto. – Continuei – Dei meia volta e segui sentido a cachoeira. Quando cheguei, o vi mergulhando na parte mais funda e fiquei escondida nos arbustos, apenas olhando. Meu corpo todo tremia por ainda estar ali. Mas eu desejava saber quem era o homem e o porquê de tudo aquilo. Pensei que estava escondida, até que ele olha para onde eu estava e diz:

- Por que ainda não foi embora?

Saí lentamente e andei em sua direção.

- Não sei o que vou encontrar quando voltar.

- Penso eu, que a senhora sabe sim. – Disse ele, saindo da água e vindo até mim - Seu marido, finalizou.

- O que sabe do meu marido? – perguntei.

- Eu estava vigiando sua rotina, senhora. Vi a ultima briga que tiveram. Como já te disse, a senhora não merece ser tratada da forma que aceita.

- Você é gentil para um homem criminoso.

Ele sorriu e se sentou ao meu lado.

- Gostei de você. E também senti pena, porque outra mulher em sua posição na vida e no sequestro, estaria em desespero, gritando aos quatro cantos do mundo, implorando por socorro. Mas, a você, isso pareceu sossego e liberdade. Talvez alguém, antes de mim, já tenha surripiado algo em você.

Foi quando Cris me interrompeu exclamando:

- Vejam só, ela está assumindo que qualquer ordinário, vale mais que seu casamento comigo.

- Cale a boca, seu merda! – Disse a mulher que se sentava à minhas costas.

Algumas pessoas da sala sorriram e Cris ficou furioso, mas calou-se.

Então continuei:

- Daquela situação em diante, conversamos e ele me explicou que seu cúmplice desejava dinheiro em troca de minha vida, mas que os planos foram por água abaixo após não conseguirem contato com meu marido. E após esse fato, iria então me matar e sumir com meu corpo. Mas, ele não pensou ser justo comigo e disse que sentiu algo por mim, então na briga que teve com o companheiro, desejava contê-lo para colocarem a cabeça no lugar, mas usou um pedaço de madeira, que estava no chão, para desmaia-lo e quando notou, constatou que o outro teria morrido. E decidiu enterrá-lo, para que pudesse me libertar e não me deparar com nenhum corpo pelo caminho.

- Certo. E o que houve depois disso? – perguntou o assistente do delegado.

- Voltamos para a capela. Ficamos ali por mais três dias até que vocês chegaram.

- Mas o que houve nesses três dias? – Perguntou a mulher, com voz de entusiasmo.

Dei um leve sorriso de canto, ao perceber sua curiosidade.

- Ele vinha até a cidade diariamente comprar alimentos.

- Como dormiam? Retornou a perguntar a mulher.

- Dividíamos o colchão que havia ali.

- Isso é demais para mim! – Disse Cris – Estou ouvindo minha mulher falar que me traiu com o bandido que a sequestrou.

- Continue senhora. – Falou firmemente o delegado, olhando para Cris, com os dentes cerrados.

- Ele me respeitava. Não me forçou a nada. Eu me senti protegida e livre. Era apenas uma capela abandonada, um colchão estendido no chão e a imagem de Jesus, que ainda se mantia presa no centro da parede. Minhas roupas estavam nojentas, eu já me sentia suja e com mal cheiro. Ele diariamente se banhava na cachoeira, então ao terceiro dia, pela manhã, resolvi ir até lá também. Quando cheguei, ele já estava.

- Como está a água? Ainda é tão cedo, deve estar congelante!

- Está fria, mas você é capaz de suportar.

Sorri e disse:

- Vire de costas para que eu entre.

Ele se virou e começou a falar como as árvores a nossa volta eram gigantescas. Tirei todas minhas roupas e entrei.

- Pode se virar agora.

Ainda não tinha entrado por completo, estava em uma parte mais rasa, onde a água batia em minha cintura. Então, assim que ele se virou, me viu nua. Não falamos nada um para o outro, ele apenas chegou até mim, colocou as mãos em meu pescoço e me deu um beijo. Logo após, mergulhamos juntos e voltamos para a beira da água. Eu estava completamente nua e ele usava apenas sua roupa íntima. A única coisa que o fez quebrar o silêncio, foi para me perguntar:

- Tem certeza disso?

Mantive a mudez.

Notei que todos daquela sala estavam atônitos. Inclusive, Cris.

- Continue, senhora! Por favor! – Disse o delegado.

- Ele começou a me beijar – Continuei – E fizemos amor ali. Foi intenso e maravilhoso. A forma que ele me tocou, ninguém havia tocado. Foi gentil e paciente. Meu corpo parecia esconder um tesouro que ele desejava encontrar. Meus seios pareciam o acalentar. Seus olhos foram os mais sinceros que eu já percebi, ao olhar. Após isso, voltamos à capela e nos vestimos para nos alimentar. Foi quando ouvimos barulhos de viaturas policiais, e ele se levantou às pressas, para ver o que era.

- Nós o encontramos devido ao carro roubado que estava estacionado próximo á vocês. – Disse o delegado. Pensávamos que a senhora estaria em perigo.

- Uma linda história de amor entre um meliante e uma mulher fajuta! – Disse Cris, ironicamente.

- Levem esse outro criminoso daqui. O senhor não vai intimidar minha cliente com sua insensatez e aspereza. – Retrucou o delegado.

Os policiais presentes na sala se movimentaram para segurar e levar Cris, algemado, já que minha declaração evidenciava as agressões por parte dele. Inconformado, ele ainda falava com voz altiva:

- Soltem-me! Isso é um erro! Eu não a machuquei! Olhem bem, ela quem errou comigo!

- O senhor irá responder por suas ações, antes e depois do ocorrido. Entretanto, em sua devida hora. – Respondeu o delegado.

Então, seu assistente me perguntou:

- E foi nessa hora que aconteceu?

- Sim – Respondi – Assim que ele deu três passos para fora, ouvi os barulhos dos dois tiros que o acertaram e o vi ali, estendido, sem demora, sobre seu próprio sangue.

Ouvi o barulho da emoção que tomou a mulher que sentava à minhas costas. Me virei, olhei em seus olhos lacrimejados e disse:

- Penso que com sua sensibilidade, talvez você me entenda. Eu poderia superar um sequestro, mas não sei se conseguirei superar esse amor.

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