domingo, 21 de janeiro de 2024

 


Infância

 

Perdão, querida criança 

Eu realmente desiludi você. 

Sempre em meu pensamento

Suas tentativas de me quebrantar

Mas minha mesquinhez e rebeldia foi se tornando um bicho e assolando os teus sonhos 

- que eram meus também. -

Eu me deixei surrupiar.

Arrebatei de você a inocência. 

As boas intenções. 

A fé.

As crenças. 

As opiniões.

Eu te afoguei nas mágoas que eu aguava.

Usei o teu coração para a mácula. 

Desfrutei teu corpo e retalhei tua alma.


Querida, você chegou ao seu limite

E ele, por vezes, minou nos olhos que eu usava.

E, ainda assim, hoje consigo sentir teu sorriso ao ver que enxerguei a eiva.

Você é a apreciação e o voto dos nossos pais, 

A polidez que deram, e tudo que foi originado como pessoa.

Você é quem eu sempre quis proteger, mesmo que de formas erradas.  

Era ingênua demais, criança.

Mas compreendi que não posso deter que cresça e não posso, nunca mais, fazer-te sair de mim, suscitando coisas que te destrói aos poucos.

Você está machucada e frágil, eu sei; mas também sei que pugna contra mim, essa outra face de você, que não sabe se cuidar.

E como sabemos, há sempre dois lados.

Mas quero cuidar de ti, que é o melhor.

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