terça-feira, 21 de abril de 2026

Rito de passagem


Carreguei esperas que não eram minhas.

Hoje, não.

O que pareceu ruptura, era propulsão. 

Hoje eu me escuto em voz alta,

mesmo quando a sala pede silêncio,

mesmo quando o olhar do outro mede,

mesmo quando eu tremo

diante do que desejo.


Eu tremo —

e ainda assim fico.

Por pertencimento interno. 

O eixo sou eu. Eu governo. 

Pertencer não é detalhe. 

Quando não me sinto intrusa, é fraterno. 


E o que machuca, talvez...

Talvez, seja empurrão para a porta que se precisa atravessar. 

Mudar de órbita é direção, não confusão. 



Há lugares que já não cabem

no corpo que estou construindo.

Há pessoas que viraram memória

antes de virarem saudade.

E há afetos que ficam,

mas não me prendem.

Estou me ligando ao que quero viver, há beleza nisso. 


Aprendi a não fingir respeito

onde ele já não mora.

Aprendi a não mendigar presença

onde eu mesma me falto.

E, pela primeira vez,

isso não me endurece.

Me limpa.


Parei de remar só para sobreviver e comecei a perceber para onde o rio me leva. Isso não é fantasia, é construção. 


Estou praticando a mim mesma. Protegendo meu eixo. 

Já sou ela. 


Casa.


Não pelas vozes,

não pelos rostos,

mas pelo silêncio dentro de mim

que não precisou se defender.


Isso é coragem em forma concreta. 

Alguns perderam meu respeito e eu não preciso fingir que não. 

Minha integridade é brutalmente honesta. 


Eu sou essa agora:

a que atravessa.

E se ainda há medo,

eu levo comigo.

Mas já não deixo que ele me leve.


Porque existe um fio,

fino, firme, invisível,

me puxando para frente.

E eu entendi:

Expansão não é ir além -

é voltar, e, enfim, caber em mim. 


Padrões são formas antigas de buscar segurança, mas o que é visto, pode ser transformado. 


Eu me vejo. 

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